quarta-feira, 6 de abril de 2011

E as nuvens, que não me largam...


Eu juro que tento encarar o futuro com optimismo. Juro que me esforço por andar sempre com um sorriso, mas isto está a tomar proporções algo preocupantes.


Não me quero expor demasiado, mas basicamente passa-se na minha casa aquilo que eu imagino que se passe um pouco nas casas da maioria de nós. Eu sempre tive os pés bem assentes na terra. Não dou passos maiores que a perna. Antes de começarmos a procurar casa, fomos ao banco, fornecemos todos os dados que nos pediram e fizemos uma simulação mais ou menos rigorosa. Ficámos logo a perceber quais eram os nossos limites e, só então, começámos a visitar sites de imobiliárias. Excluímos logo todas as ofertas que não cabiam no nosso orçamento. E encontrámos uma solução bastante razoável. Nem sequer esticámos até ao limite possível. Ficámo-nos pelo "confortável". E isto tudo para dizer que as decisões que tomamos na nossa vida seguem todas esta linha de raciocínio. Somos, portanto, pessoas ponderadas e que não se atiram de cabeça para compras megalómanas.


Nessa altura, há dois anos e picos atrás, ambos tínhamos [como continuamos a ter] um emprego. Ambos efectivos. Ambos com alguma segurança. Tivémos de investir em equipamento para a casa [alguns móveis, electrodomésticos e afins] e, para isso, usámos as nossas poupanças. Também foi das nossas poupanças que saiu o montante exorbitante que pagámos em impostos sobre a transacção. E, entretanto, preparávamos nesse ano a chegada do piolho. Não fazíamos vida de rico, mas as coisas corriam-nos razoavelmente bem.


De lá para cá, aumentaram as nossas despesas. Tivémos um bebé e toda a gente sabe o que isso significa em termos de orçamento. Temos bastantes ajudas, só tenho de me preocupar com o jantar, porque almoçamos na bisa G., ao sábado almoçamos na minha mãe. Os meus pais e avós vão ajudando com o que podem, hoje uma roupa para o piolho, amanhã um pacote de fraldas e assim se vai levando. Não fizémos mais investimentos significativos, exceptuando o carro que comprámos por altura do nascimento do meu filho. Não foi um luxo, foi uma necessidade. Temos dois carros a gasóleo e não podemos dispensar um deles. Os compromissos profissionais não nos permitem abdicar de um carro.


De resto, pagamos água, luz, gás. Ambos temos telemóvel. Temos uma assinatura de TV por cabo, internet e telefone. Não fazemos férias no estrangeiro, não viajamos, nem sequer nos hospedamos em hotéis. Optamos sempre pela solução mais económica e cozinhamos nas férias. Não temos iPhone's, ipad's, tablet PC's. Eu nunca tive um portátil. Herdei o do meu marido quando ele teve, por força da profissão, de comprar um portátil novo. Não temos telemóveis topo de gama. Não compramos prendas um ao outro e, quando compramos, optamos por utilidades que teríamos de comprar de qualquer forma. Compramos muitos produtos de marca branca. E eu podia continuar aqui a mostrar o quanto nós somos controlados e ponderados, mas acho que já deu para perceber a ideia. A única coisa em que eu não penso muito quando gasto dinheiro é nos produtos que compro para o meu filho. E não estou a falar de iogurtes de bebé xpto [come iogurtes de aroma e polpa absolutamente normais], de roupas caras [visto-o basicamente na Zippy, H&M, Zara e pouco mais... não temos Primark perto], etc. Falo sim dos cremes para pele atópica, da alimentação sem gluten, de pelo menos um bom par de sapatos por estação, das fraldas [venha quem vier, só compro dodot, quase sempre em promoção. Dou-me ao trabalho de consultar os sites das grandes superfícies antes de decidir onde é que as vou buscar]. Portanto, mesmo nas compras para a o meu filho, estabeleço prioridades.


Neste momento, nenhum dos nossos empregos é tão estável assim. Estamos cada vez mais retraídos enquanto consumidores. E isto é só na minha casa. Se multiplicarmos esta realidade à escala do país e do mundo empresarial, eu não consigo ver um futuro sem núvens.


Não sou economista nem tenho soluções para a crise. Faço a economia da minha própria casa e acho que faço um bom trabalho. Mas até quando? Há muitos meses que não conseguimos amealhar. Sempre fomos pessoas de poupar, de juntar dinheiro para as cadeiras da sala [que ainda não temos], para a festa de baptizado do miudo, para a máquina de fazer pão, para necessidades específicas que vão surgindo. Neste momento, quando o fim do mês se começa a aproximar, eu já só quero que ele chegue rápido. Olho para o depósito do carro e fico deprimida quando percebo que está na hora de ir atestar novamente [bombas low cost, pois claro]. Vejo o frasco do creme do meu filho chegar ao fim e equaciono se chegará à semana seguinte, porque 25€ custam muito a dar... A minha afilhada faz anos e eu, que sempre lhe pude dar um presente que fizesse a diferença, dou mil e uma voltas à cabeça para conseguir encontrar uma solução mais barata, mas que a deixe feliz.


"&%$"&%$", pá! Estou cansada de apertar o cinto. E o pior é que ele ainda vai ter de apertar muito mais. Não quero ainda equacionar a hipótese de um de nós perder o emprego de forma repentina. Eu não tenho medo de trabalhar, em casa não hei-de ficar. Mas o facto de não ter neste momento uma rede que me permita ser surpreendida por uma situação de desemprego... deixa-me nublada e com um nó na garganta.


Onde é que está o escudo? Onde foi parar o meu poder de compra...?


12 comentários:

Tânia (Mamã do Santiago) disse...

NI sempre que leio e ouço coisas cmo as que escreves-te tenho vontade de chorar...esta realmente cada vez mais dificil.

:(

Ni! disse...

Tânia, eu também tenho. E acredita que há muitas coisas que não escrevi, para proteger as pessoas que me rodeiam.

Não sei onde vamos parar, sinceramente :(

Sara disse...

E diz o meu namorado que eu exagero e faço filmes... A verdade é que vejo as coisas assim e penso "Vou ter uma filha! E se lhe faltar alguma coisa??".
É uma realidade deprimente e triste e que podia ter sido evitada (ou atenuada), mas enfim... Rezemos para que melhore!

Espero que, apesar de tudo isto, esteja tudo bem com vocês :)
Beijinhos

Tanita disse...

Oh querida, isto infelizmente está a passar-se com muito mais pessoas que imaginamos, eu nunca fiz tantas contas como agora. Está tudo carissímo. E o supermercado? nós sempre fizemos férias no estrangeiro e este ano pensamos ir também mas, não sei mesmo... fartamo-nos de trabalhar e no fim temos mais mês que ordenado. Não quero ser péssimista nem penso muito nisso, mas já começou a preocupar-me.
Bj**

Ni! disse...

Sara, olá e sê bem-vinda. À tua menina vais ver que não há-de faltar nada. Nós temos esta capacidade de garantir a segurança das crias :) Tudo de bom para ti e para o nescimento da bebé.

Tanita... já nem digo mais nada. Isto está mesmo a deixar-me angustiada...

Naná disse...

Ni, por favor inspira e expira 10, 20, 30 ou 50 vezes! Se não vais rebentar!!
Eu, não sei porquê, não penso muito nisso... porque penso que estou bastante bem, se pensar que há pessoas que criam 2 ou 3 filhos com apenas 2 salários mínimos nacionais. Criam com enormes dificuldades, mas conseguem de alguma forma, e essas pessoas eu admiro!!
E olho para mim e sinto-me uma sortuda: tenho uma casa que me dá todo o conforto, carro para andar e dinheiro para ir abastecendo, comida na mesa (se comesse menos até nem me fazia mal...), roupa para vestir e sapatos para calçar. Se olhar para os meus pais, posso assegurar que tiveram uma vida muito mais dificultada que a minha e a mim nunca me faltou nada!!
E sem falar que mudei de emprego, saí duma empresa onde estava efectiva e vim para outra a contrato, o que não é habitual nos dias que correm...

Ni! disse...

Naná, são as núvens... são as núvens...
Há momentos em que fica difícil não pensar. Mais uma vez fica só o desabafo. Mas é isso, gosto da tua atitude e da tua maneira de pensar. Eu também penso assim, juro. Mas há dias em que, por um motivo ou outro que não vale a pena estar aqui a explorar, as núvens apoderam-se de mim.
Beijinho.

Agridoce disse...

Só me resta deixar-te um abraço!... Porque sei um bocadinho o que isso é. Não tenho filhos mas temos uma casa para pagar e temos as nossas gatas. São despesas e contas e mais contas!... Parece que os meses esticam e os ordenados encolhem! Eu tomei a opção de não estar a trabalhar a tempo inteiro e, agora, arrependo-me muitas vezes disso. Resta esperar por dias melhores e continuar a arranjar formas de gastar o menos possível! Beijinho grande

Ni! disse...

Agridoce,
Obrigada pelo teu comentário e, sobretudo, pelo abraço solidário :)

Mamã do Príncipe Pipoca disse...

Estamos todos fartos de apertar o cinto e é verdade por mais que cortemos e cortemos o dinheiro parece nunca chegar para tudo o que é necessário... É um sufoco, estou a rezar para que isto comece a mudar, quero acreditar que vai mudar para melhor, quero acreditar muito.

Ni! disse...

Mamã do PP, eu quero acreditar contigo :)

Lucente disse...

Ni, não sei se a dica ainda é útil ou sequer prática mas se viver perto de Espanha, a cadeia de supermercados Mercadona (para além dos inúmeros produtos de marca própria sem glúten que tem) tem uns cremes para pele atópica que, sendo bem baratos, funcionam tão bem como os da Uriage, Aderma e afins... experimentados no meu filho com sucesso e sem reacções.